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Strategy Engineering

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A rádio concorrente nos imita em tudo

Daí surge uma questão que se torna paralisante em muitas cidades do interior: locais com duas rádios e sem institutos minimamente confiáveis capazes de identificar qual emissora obtém alguma vantagem em audiência, se é que essa vantagem realmente existe. Em grande parte dos casos, as programações musicais, os programas e as promoções parecem apenas pequenas variações entre si.

Em muitos lugares, esse embate ocorre inclusive entre rádios de cidades muito próximas. Em situações ainda mais caóticas, vemos cidades vizinhas em que cada uma possui uma rádio comunitária. Como sabemos, rádios comunitárias, em regra, recebem autorização para operar em 87,9 MHz, embora existam casos em 104,9 MHz, 87,5 MHz e 87,7 MHz. De forma quase proposital, emissoras comunitárias de municípios vizinhos acabam operando na mesma frequência. Quando essas cidades estão a menos de 7 km de distância, isso é pior do que uma concorrência pouco saudável: o que se forma são extensas zonas de espúrios, onde nenhuma das rádios apresenta um som agradável para sintonizar. É aí que a interferência mútua se torna mais evidente.

Voltando à primeira questão, na qual as rádios basicamente se espelham, não é difícil perceber o quanto isso aponta para estagnação e até cansaço do ouvinte. Ao mesmo tempo em que o espelhamento é irritante para as emissoras, ele também não permite um descolamento claro entre elas, ao menos na percepção do anunciante.

Na prática, essa igualdade absoluta não existe. Há inúmeras nuances de diferenciação, queiram as emissoras ou não. Até mesmo a forma de comunicação fora do rádio, como redes sociais, ações locais e presença comunitária, cria vínculos distintos com a audiência. E, de maneira crítica, não é raro encontrar situações em que uma rádio apresenta áudio elogiável enquanto a outra é uma coletânea de distorções e degradação sonora.

E, por incrível que pareça, apesar de parecer óbvio, não é uma regra que a emissora com melhor qualidade de áudio seja a de maior sucesso comercial. Isso só se explica quando se compreendem os múltiplos fatores que moldam a percepção do anunciante. Uma equipe comercial eficiente e um bom suporte promocional podem ser determinantes e, em muitos casos, essa combinação acontece justamente na rádio de pior qualidade sonora. Tudo isso enriquece a inacreditável história do rádio do interior.

Sim, as rádios comunitárias são certamente uma fonte inesgotável de histórias. Foram elas as principais responsáveis pela hiperpopularização de emissoras próprias nas pequenas cidades a partir dos anos 2000. Para o bem ou para o mal, esses espaços ficaram de portas escancaradas tanto para descobertas incríveis de talentos quanto para experiências nem tão felizes. Ciúmes, intrigas e disputas sempre fizeram parte do rádio. A superpopulação de FMs dos anos 2000 apenas reafirmou esse cenário.

Voltando às nuances: a vontade de fazer rádio de forma profissional, sem se apequenar pelo fato de a emissora estar em uma pequena cidade, é um fator chave. Caso contrário, a rádio passa a sobreviver de favores que soam mais como esmolas, um atestado claro de que a fórmula não funciona. Muitas rádios comunitárias, historicamente, apresentaram programações muito distantes daquilo que a audiência realmente deseja ouvir. Não faltam exemplos de locutores que ligam o computador e colocam seu gosto musical exótico para um público que não quer consumir aquilo. Isso torna ainda mais improvável que outra emissora copie esse modelo.

Existem também situações intrigantes. Em cidades vizinhas, é comum que rádios quase formem uma rede informal para transmitir diariamente o mesmo e muito ouvido padre de audiência nacional. Resultado: não há opção no dial. A primeira rádio transmite o programa do padre, a segunda também, e a da cidade vizinha igualmente. A emissora que começou primeiro pode até reclamar para Curitiba, mas não adianta: quanto mais rádios repetirem o sinal naquele horário, melhor para quem distribui o conteúdo.

Só que, em tempos de internet, esse fator da falta de opção deixa de existir. O ouvinte que quer outra coisa simplesmente migra para o YouTube e muitas vezes esquece de voltar para o FM. No interior, é extremamente comum as pessoas preferirem ouvir música no YouTube quando as rádios locais não tocam o que elas querem, mais até do que recorrer ao Spotify. O YouTube é intuitivo para todas as idades. Já o Spotify, embora simples para o jovem conectado, não é tão óbvio para públicos mais simples. Para muitos, nada é mais fácil do que abrir o YouTube, deixar o clipe rolando, mesmo sem assistir, e usar o celular como rádio.

Se a programação vira espelho, o ouvinte fica sem opção e inevitavelmente sai do FM.

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