Trump age como um soviético: não o idolatrem como “direita”; ele é protecionista e censor
- Ricardo Gurgel

- 19 de jan.
- 8 min de leitura
Protecionismo econômico não é “direita raiz”, é controle de mercado
Trump se vende como pró-livre mercado, mas na prática adota uma lógica de Estado interventor: tarifas, barreiras, punições comerciais e pressão sobre cadeias produtivas. Isso não é liberalismo econômico. É economia dirigida, com o governo escolhendo vencedores e perdedores.
Nacionalismo econômico é a versão moderna do planejamento central
A ideia de “America First” muitas vezes vira um argumento para manipular o comércio, forçar empresas a se realocarem e usar o Estado como instrumento de coerção econômica. É uma mentalidade típica de regimes que tratam o mercado como ferramenta política, não como ambiente de liberdade.
A retórica de “inimigos internos” é clássica de regimes autoritários
O discurso de que existe um “sistema” infiltrado, sabotadores, traidores e uma elite conspirando é o mesmo roteiro histórico usado por governos que precisam justificar medidas de exceção. Quando o líder cria um inimigo permanente, ele cria também a desculpa perfeita para concentrar poder.
Censura não é só proibir jornal: é intimidar, sufocar e controlar narrativa
A censura moderna não precisa fechar imprensa com tanques. Basta: deslegitimar jornalistas, pressionar plataformas, ameaçar veículos, estimular perseguição pública e transformar qualquer crítica em “crime moral”. A intenção é a mesma: reduzir o espaço de crítica e impor um monopólio de verdade.
Controle do debate público por “patriotismo” é controle ideológico disfarçado
Quando o critério vira “quem critica é antiamericano”, a liberdade de expressão passa a ser condicionada à obediência. Isso é o oposto do espírito liberal-conservador clássico, que tolera o contraditório e entende crítica como parte do jogo democrático.
A política como espetáculo serve para substituir instituições por culto ao líder
O líder vira o próprio Estado. A lealdade pessoal passa a valer mais que regras, princípios e limites institucionais. Isso não é conservadorismo institucional. Isso é personalismo político — muito mais próximo de modelos autoritários do que de uma direita democrática.
A ideia de “lei só vale quando me favorece” é antiestado de direito
Um político que relativiza justiça, imprensa, eleições e fiscalização não está defendendo ordem: está defendendo impunidade seletiva. Regimes autoritários funcionam exatamente assim: lei para os outros, proteção para os aliados.
Intervenção sobre empresas e setores vira chantagem política
Pressionar empresas, ameaçar contratos, incentivar boicotes e usar o Estado para punir “inimigos” é um método de coerção típico de governos que não aceitam autonomia do setor privado. É capitalismo de compadrio com estética populista.
O protecionismo cria um “capitalismo estatal”, não um capitalismo livre
Tarifa vira imposto escondido, que encarece consumo e distorce competição. E quando isso é vendido como “defesa do povo”, o resultado costuma ser: mais poder ao governo e mais dependência de grupos econômicos alinhados ao poder.
A censura e o protecionismo caminham juntos: ambos dependem de controlePara controlar economia, você precisa controlar narrativa. Para controlar narrativa, você precisa intimidar discordância. Não é coincidência: regimes que centralizam economia tendem a centralizar comunicação.
Trump não representa “direita”, representa populismo de poder
A direita, no sentido clássico, defende instituições, limites do Estado, liberdade econômica e pluralidade. Trump opera com outra lógica: poder concentrado, Estado como arma e discurso moral para justificar coerção.
Conclusão direta do argumento
Se alguém idolatra Trump como símbolo automático de “direita”, está ignorando o principal: ele atua com ferramentas típicas de governos estatizantes e autoritários, protecionismo, pressão institucional e tentativa de controlar o debate público. Isso é mais próximo de uma mentalidade soviética de controle do que de uma direita liberal e democrática.
Trump “faz gols contra a direita” fica bem mais clara quando você olha o efeito político colateral: ele puxa o debate para o terreno do medo e da reação, e isso frequentemente reorganiza o campo adversário, salva lideranças desgastadas e cria vitórias que a esquerda não conseguiria sozinha.
Recuperação da popularidade de Lula e o contexto Trump
1. Lula vinha com popularidade em queda em 2025
No início de 2025, pesquisas mostravam que a aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava em níveis historicamente baixos para seus governos, com desaprovação se aproximando ou superando aprovação em várias sondagens ao longo do ano.
2. A escalada do conflito com Trump reconfigurou percepções
Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas elevadas sobre produtos brasileiros, um movimento inicialmente pensado para pressionar o Brasil e beneficiar aliados como Jair Bolsonaro, isso acabou se tornando um fator de mobilização interna no Brasil.
3. A resposta de Lula ao “ataque” externo criou um efeito rally-around-the-flag
O governo brasileiro reagiu criticando duramente as tarifas como uma ingerência indevida, enfatizando a defesa da soberania nacional. Essa postura aumentou o apoio público a Lula em determinados segmentos, gerando um “efeito unidade” frente à pressão externa, algo que muitas vezes beneficia governantes frente a um adversário estrangeiro percebido como hostil.
4. Pesquisas registraram melhora na aprovação
Dados de pesquisas ao longo de 2025 mostraram:
A aprovação de Lula ultrapassou a desaprovação em meados do ano em pelo menos uma rodada de pesquisa.
Sondagens como Ipespe e Genial/Quaest indicaram melhora nos índices de aprovação e redução da rejeição.
Parte do ganho de popularidade foi associado à repercussão positiva de um encontro entre Lula e Trump na ONU, segundo analistas de pesquisa.
5. Interpretação política
A dinâmica foi bastante parecida com situações observadas em outros países: quando um líder estrangeiro adota posturas percebidas como hostis, isso pode impulsionar o apoio à liderança nacional, mesmo que sua aprovação tenha estado em baixa. Isso não quer dizer que a retomada seja exclusivamente por causa de Trump, fatores internos como políticas sociais ou econômicas também influenciam, mas a reação à pressão externa atuou como um catalisador de apoio popular.
Eleições federais no Canadá em 2025
1. Realização e resultado
As eleições federais no Canadá ocorreram em 28 de abril de 2025 para eleger a 45ª Câmara dos Comuns.
O Partido Liberal, liderado por Mark Carney, manteve o governo com um governo minoritário e conquistou a maior parte do voto popular e assentos, revertendo expectativas prévias de derrota.
2. Cenário prévio à eleição
Antes da votação, o Partido Conservador, sob Pierre Poilievre, aparecia nas pesquisas com vantagem considerável e era visto como favorito para ganhar a maioria.
3. Importância das relações com os EUA
A campanha foi marcada por questões domésticas (economia, custo de vida, moradia, crime etc.), mas as tensões com os Estados Unidos, incluindo tarifas e ameaças do presidente Trump, tiveram papel significativo na mobilização eleitoral.
Segundo análises de momento pré-eleitoral, os comentários de Trump sobre o Canadá — incluindo ameaças retóricas bastante duras — reforçaram o sentimento de patriotismo e crítica às políticas externas norte-americanas, o que ajudou a estabilidade do Partido Liberal nas urnas.
4. Desfecho e repercussões
O Partido Liberal não conseguiu maioria absoluta, mas consolidou posição como maior força parlamentar.
A vitória foi uma reversão de tendência, dado que pesquisas anteriores e projeções apontavam para ampla vantagem conservadora.
O resultado é visto como um sinal de que eleitores rejeitaram associações diretas com agendas alinhadas à Trump, especialmente em questões de soberania e política comercial.
Conexão entre Lula, Trump e eleições no Canadá
Embora os contextos do Brasil e do Canadá sejam distintos, há uma linha comum:
externa acabou fortalecendo adversários políticos de quem Trump pretendia favorecer.
No Brasil, isso ajudou a impulsionar a aprovação de Lula em um momento crítico.
No Canadá, contribuiu para uma reação popular negativa que, ao menos em parte, beneficiou os liberais frente a um avanço dos conservadores.
Essa dinâmica não sugere apenas um efeito incidental, mas um padrão em que políticas agressivas além-fronteiras mobilizam opinião pública interna contra a figura ou agenda associada ao agente externo.
Se você desejar, posso elaborar uma análise mais aprofundada dessas interações (incluindo números de pesquisas e tendências eleitorais), ou relacionar esses eventos a fenômenos políticos comparados globalmente.
Trump é um admirador incansável de Putin, um saudosista da URSS
A) O padrão retórico: elogios pessoais e validação do “homem forte”
Trump repetidamente descreveu Putin com termos como “forte”, “inteligente”, “esperto”, “muito astuto”. Mesmo quando critica algum ato específico, ele tende a separar o ato do personagem e voltar ao ponto central: Putin como alguém eficiente, duro, dominante.
Isso é significativo porque não é o vocabulário típico de um líder ocidental falando de um adversário estratégico. Em geral, quando há elogio, ele vem acompanhado de condicionantes institucionais. Trump muitas vezes elogia sem contrapeso moral, o que passa uma mensagem simbólica: ele admira a forma, a autoridade, a capacidade de impor vontade.
B) Defesa indireta: relativização de culpa e transferência de responsabilidade
Um traço comum nas falas de Trump é o movimento de “deslocamento” do problema. Em vez de tratar a Rússia como agressor de maneira objetiva e direta, ele frequentemente enquadra o cenário como:
“os EUA provocaram”
“a OTAN provocou”
“a Europa é culpada”
“a Ucrânia errou”
“Biden é fraco”
“isso não teria acontecido comigo”
Esse tipo de framing não é neutro. Ele reduz a centralidade da decisão russa e, por consequência, limpa a imagem de Putin no debate público. Na prática, Trump atua como um advogado de contexto: “Putin fez isso, mas veja bem…”.
C) A obsessão por “negociar com o líder forte” como solução mágica
Trump vende a ideia de que guerras e crises internacionais se resolvem com “uma conversa” entre líderes, como se instituições, alianças, soberania e direito internacional fossem acessórios.
Essa visão combina perfeitamente com o modelo Putin:
decisões concentradas
diplomacia personalista
acordos como imposição, não como consenso
Quando Trump sugere que o problema é falta de “respeito” e que basta “ser duro” para Putin recuar, ele reforça a lógica do autoritarismo: o mundo é um tabuleiro de chefes, não um sistema de regras.
D) O que ele admira, no fundo: controle interno e disciplina social
Putin representa um tipo de liderança que Trump parece considerar desejável:
imprensa domesticada
oposição enfraquecida
aparato estatal disciplinado
narrativa nacional única
punição exemplar de adversários
Trump não precisa dizer “quero ser como Putin” literalmente. A admiração aparece quando ele trata esse tipo de comando como “força”, e não como risco democrático.
É o mesmo raciocínio de quem confunde autoridade com legitimidade.
E) O ponto mais sensível: Trump muitas vezes age como se “instituições” fossem inimigas
A democracia liberal depende de:
imprensa livre
justiça independente
burocracia profissional
alternância de poder
limites ao Executivo
Putin governa com o oposto disso: um Estado centrado no líder e sustentado por controle. E Trump, em vários momentos, demonstra impaciência com os freios institucionais do sistema americano, tratando-os como “sabotagem” do “deep state”.
Quando ele olha para Putin e vê eficiência, ele está admirando precisamente aquilo que a democracia tenta impedir: poder sem freio.
F) Por que isso vira “gol contra” para a direita democrática
Se a direita quiser se manter como campo político viável em democracias, ela precisa defender:
Estado de Direito
propriedade e liberdade econômica
liberdade de expressão
estabilidade institucional
O problema é que o “modelo Putin” é uma mistura de:
nacionalismo de Estado
repressão política
economia controlada por oligarquias
propaganda e coerção
Isso é, na prática, um autoritarismo com capitalismo de compadrio. Não é “direita liberal”. É outra coisa.
E quando Trump normaliza Putin como “líder admirável”, ele empurra a direita para um lugar tóxico: ela passa a ser associada não a liberdade, mas a autoritarismo “eficiente”.
G) Síntese: a admiração não é detalhe, é sinal de projeto de poder
O fio condutor é simples: Trump demonstra simpatia por líderes que concentram poder e impõem obediência, e Putin é um dos exemplos mais emblemáticos desse estilo.
Por isso, quando Trump “defende” Putin (direta ou indiretamente), não é só geopolítica. É identificação com um arquétipo: o líder que manda, que cala opositores e que governa como dono do país.












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