Meu quase afogamento - Barra Tabatinga 03/01/2026
- Ricardo Gurgel

- 6 de jan.
- 10 min de leitura
Atualizado: 8 de jan.
Meu nome é Ricardo Gurgel. Sou um dos sobreviventes do afogamento ocorrido em 3 de janeiro de 2026.
Minha ligação com Barra Tabatinga
A casa da minha família, em Barra de Tabatinga, fica na enseada onde o quebra-mar deixa o mar como uma piscina quase seca e, mesmo quando cheia, as ondas são bem mais tranquilas. Sempre gostei de “pegar jacaré (pegar onda sem prancha)". Até gosto de levar um sacode do mar, sendo meio que arremessado da onda na areia. Sabia que teria uma das marés mais cheias no fim da tarde. Sabia que seria uma das maiores marés do ano e, às cinco horas da tarde, olhei o relógio, saí de casa correndo mais forte que um simples trote e fui direto para a enseada de mar aberto, a pouco menos de 1 km de casa, cerca de sete minutos correndo até o ponto em que entraria na praia. Vi um pessoal tomando banho, pelo menos não entraria em um local vazio. Parecia que todos ali eram da mesma família: um senhor na água, umas meninas por perto e outras pessoas na areia. Vi a linha na areia molhada e, na minha percepção, a maré ainda iria subir.
Suposição errada
Achei até que faltava muito para ela subir. Não consultei a tábua de marés em lugar nenhum, apenas imaginei que o mar ainda subiria. Entrei, nadei por cerca de dez minutos e peguei alguns jacarés. Então tive a primeira dificuldade para sair do mar. Me senti preso um ou dois metros atrás da quebra de ondas e dali já decidi que sairia da água assim que tocasse o chão.
Observação:
Naquele dia, a maré alta atingiu seu pico às 17h01, com altura aproximada de 2,2 m. Portanto, no momento em que estávamos na água, a maré já se encontrava em vazante.
Quebrei minha promessa
Consegui pisar no banco de areia instantes depois e escapar da área crítica. Como tinha conseguido, quebrei minha promessa de sair de imediato, pensei em pegar uma última onda grande antes de ir embora e voltei para isso. Minha última onda antes de sair da água não aconteceu. Fiquei uns três metros distante da linha de segurança do banco de areia. Assim que vi as meninas, pensei em avisá-las para saírem dali, porque eu já estava em dificuldade. Mas, antes que conseguisse, todas começaram a gritar por socorro.
O começo do pânico
Todos sabíamos que a correnteza nos havia capturado, mas, ainda assim, eu acreditava que conseguiria escapar. Logo que tudo começou ainda tive a confiança de tentar empurrar uma delas para frente, mas, com o turbilhão de água, sem apoio nem boa tração de pernas e braços, acabei não conseguindo dar qualquer impulso para fazê-la sair. Não conseguindo isso, tentei pelo menos suspendê-la um pouco por uns dois minutos, um esforço que não foi muito útil, apenas um breve respiro a mais. Não consegui fazer nada além disso. Nada mais. Esse tempo já foi suficiente para que todos nos percebêssemos ainda mais distantes. A marcha da corrente era sentida, mas eu não tive a habilidade de lê-la. Precisava muito entender aquela marcha. Ainda estava racional o suficiente para tentar a fuga lateral.
Tentei ler a correnteza
Sim, lembrei imediatamente de nadar lateralmente, mas me bloqueei de fazer isso e nem sei direito o por quê. Não tenho outra explicação a não ser que, naquele momento, quando olhei para o lado, a água também parecia correr para trás, ou aquele canal estava muito mais largo que o normal, ou existiam correntes paralelas muito próximas e virou um bloqueio. Também não queria dar orientações erradas às meninas. Para piorar, a corrente parecia diagonal em um momento e rente em outro, o que confundia totalmente o que seria essa “saída perpendicular à linha de corrente”. Tentei muito ler a correnteza, tentei muito, mas nada estava claro. Não havia espuma, os desenhos que a água formava não me davam pistas. Eu tinha muito medo de indicar uma direção errada para elas, seria insuportável guiá-las para a morte. Desde o começo, elas gritavam em terrível desespero. Não conseguiam nadar em qualquer direção; tentavam instintivamente apenas manter a cabeça fora da água.
Os gritos eram respondidos por outros gritos
Uma, em especial, tinha um grito superagudo, muito estridente, certamente ouvido pelas pessoas na praia. Eu também ouvia o grito de uma senhora, acredito que a mãe delas ou de alguma delas, um grito de desespero no mar e outro na areia. Elas já estavam em modo pânico. Eu só conseguia falar em volume baixo. Ainda tentei explicar que não gritassem, para assim preservarem energia e atenção às ondas. Não conseguia falar alto. Não sei se me ouviram, mas sei que continuaram a gritar. Era o jeito delas de reagir ao pânico. Em momento algum direi que erraram em algo, porque ali ninguém sabia o que era o certo a fazer. Eu também não conseguia ser ouvido, sem força na voz. me Impressionava a potência daqueles gritos. Era doloroso ouvir aquele pavor. Eu estava em aflição do nível vermelho ao preto. As pequeninas em pânico e, naquele momento, sem esperança. Começamos a nos espalhar. Quando nadei na direção que acreditava ser a certa, olhei para trás e nenhuma tinha conseguido me acompanhar. Provavelmente continuavam paralisadas, apenas no modo de manter a cabeça fora da água. Elas sabiam também que eu mesmo não tinha clareza se estava nadando na direção correta. Então, até me acompanhar poderia ter sido fatal para elas. Não havia nada que eu fizesse que pudesse garantir que aquele era o caminho certo. Um medo gigante de dar uma orientação errada. Apenas arrisquei sair do modo de flutuação dinâmica. Elas não conseguiam nadar, apenas pareciam tentar livrar a água da boca.
O volume dos gritos baixavam
Os gritos ficaram cada vez mais distantes. Não sei se eu estava avançando, ou mantendo minha posição, mas o mar as levava. Os gritos foram ficando distantes, bem distantes. Pareciam vidas se desligando. Eu nadava e ouvia cada vez mais baixo. Nesse momento pensei: “Deus, elas não vão sobreviver. Tem que aparecer socorro agora. Em poucos minutos, elas não vão sobreviver”.
A primeira terrível "certeza"
Estavam se distanciando e silenciando, nesse momento pensei: “Deus, elas não vão sobreviver. Tem que aparecer socorro agora. Em poucos minutos, elas não vão sobreviver”. Eu realmente achei que não havia mais tempo para elas, que não havia mais como elas sobreviverem. Quando tudo silenciou, pensei que ali a morte tivesse chegado.
Uma cabeça no mar trouxe a primeira esperança
Nadei mais alguns minutos e vi uma cabeça. Um desconhecido que estava ali, se colocando em alto risco. Ele olhou para mim e perguntou se eu estava me afogando, falei bem baixinho: “Tô” e ele se aproximou um pouco mais, ficou a uns cinco metros e me disse: “Vem nessa direção”, eu vi que ele tinha palmilhas de natação, o único equipamento que usava para tamanho risco.
Orientação
Ele repetia: “Vem para essa direção!”. Bem nadamos na direção que ele orientou por um bom tempo, mesmo com a nova direção, parecia que não nos movíamos e isso foi angustiante. Minhas energias já estavam bem baixas. Pedi que se aproximasse para que eu pudesse ter uma pausa e respirar com a ajuda do ombro dele, garantindo que não o puxaria. Ele confiou e peguei um rápido respiro. Passados bons minutos mantendo o ritmo, com a vista cansada e energia extremamente baixa, eu dizia que ia apagar. Ele respondia: NÃO, NÃO APAGA, NÃO APAGA! QUAL É O TEU NOME, QUAL É TEU NOME, ME FALA! Com as mãos, indiquei que depois falaria, para não gastar energia com a voz. Ele compreendeu. Depois de um tempo, repeti que ia apagar, e ele disse que estávamos nos aproximando da areia. Olhei e continuei achando que não nos movíamos. Pensei que fosse mentira, mas não contestei. De fato, ele bondosamente mentiu para manter minha moral. Por um bom tempo, mesmo nadando de lado, parecia que não nos movíamos nem para a areia nem para a lateral. Depois de um tempo, vi um amigo de infância entrar no mar com uma boia náutica, aquelas vermelhinhas e abençoadas. Devo a você o nome do meu primeiro herói, que ainda vou buscar e aqui colocar. Ele se colocou em risco usando apenas palmilhas.
Só a partir daí achei que sobreviveria
Já Marcelo é o meu segundo herói, ele que entrou com essa boia e foi só a partir daí que vislumbrei uma chance real de sobreviver. Apesar de alguns minutos que pareceram longos nessa etapa, assim que a boia chegou, o primeiro herói pôde ser liberado para a praia, e Marcelo me acompanhou até que eu tivesse forças para tracionar com as mãos na água e chegarmos à areia. Assim que cheguei, tentei andar e caí, meu corpo mentiu para mim, dizendo que ainda havia alguma reserva, não tinha quase mais nada.
Mentiras salvadoras
Agradeço as boas mentiras que elevaram minha moral e me levaram a sobreviver. Na etapa final, meu corpo me enviava sinais de que ainda havia carga suficiente até para andar, mas não havia. Eu estava usando tudo, sem alerta de tanque seco. Ao amigo que veio ao meu resgate e precisou mentir dizendo que estávamos nos aproximando, só agradeço.
Aos desconhecidos solidários
Na praia, muitos desconhecidos estavam dispostos a ajudar. Só agradeço. Poucos minutos depois, ainda me recuperando na areia.
Os bombeiros
Os bombeiros chegaram em grande número e seguiram para a outra enseada, Se eles demorassem um pouco mais, só eu teria sobrevivido, pois fui o único salvo antes da chegada deles. Teria sido uma terrível solidão de salvamento.
A corrente havia levado as meninas para perto de uma região de pedras, pelo menos era o que parecia na minha visão. Logo soube que duas estavam salvas. Achei um milagre incrível. Fiquei na torcida gigantesca para que encontrassem a terceira menina, mas a informação que chegou era de que ela continuava desaparecida. E desaparecer no mar nos leva a terríveis certezas. Depois de um tempo me recuperando, caminhei de volta para casa e nem sabia como contar o que tinha acontecido.
Sobre a maré
Devo ter entrado no mar por volta das 17h15 e saído por volta das 17h40. Não foi apenas uma corrente de refluxo das ondas; era uma maré vazante, um mar inteiro recuando. Errei ao pensar que estava enchendo: tratava-se do esvaziamento de uma maré de alta amplitude, determinado pela posição de atração gravitacional entre Sol e Lua na maré mais forte do ano
Rota de Retorno
Peguei algumas referências para tentar mapear minha rota de retorno, o mapa pode conter imprecisões, busquei fidelidade, mas será apenas uma aproximação que talvez sirva para compreender o sistema de correntes local, precisamos de alerta

Zoom do zoom

Um momento crítico. A impressão transmitida na imagem é de proximidade, mas, naquele ponto, eu já não conseguia mais vê-las havia alguns minutos, nem ouvia gritos. É possível que já estivessem economizando energia.
No print, estou destacado em verde. Em azul, aparece o primeiro auxílio, prometo descobrir o nome dele, pois foi vital naquele momento. Ele também esteve em risco ao perceber e enfrentar o problema. Em rosa, estão as meninas.
Compressão de perspectiva
O que poderia ter levado à completa perda de noção da posição delas a partir do nosso ponto de vista? Parte da explicação pode estar relacionada à compressão de perspectiva provocada pelo uso de zoom ótico na imagem. O zoom digital certamente foi utilizado, já o zoom óptico, não tenho como afirmar se também foi empregado em conjunto.
Exemplo típico do efeito conhecido como compressão de perspectiva



Baixíssima linha de visão
O outro fator, este sim praticamente certo, foi a linha de visão extremamente baixa que tínhamos: estávamos apenas com a cabeça fora da água, o que reduzia drasticamente o campo visual e contribuía para a distorção da percepção de distância.
Caminhada e casa
Uma das maiores vontades que eu tinha enquanto estava no mar era ver minha sobrinha bebê, na verdade, filhota de quatro meses da minha prima, que trato como sobrinha. Quando cheguei em casa, ela estava olhando para mim e rindo. Outro caos que me atravessava era imaginar como ficariam meu pai e minha mãe se eu não escapasse.
Deus
Com tantos detalhes específicos em momentos-chave e em instantes inadiáveis, a cadeia de acontecimentos na fase de recuperação, e até antes dela, tornou-se evidente. Logo no início tive o alerta, mas quebrei a promessa de sair da água assim que pisei no banco de areia. Acho que, de certa forma, desafiei Deus. Mesmo assim, novamente surgiram “atores” que pareciam enviados em auxílio. Mesmo depois de ter desprezado a chance de sair da água, ainda assim voltei a ser auxiliado.
Tive vários momentos de aparente esgotamento total de energia, cargas sem explicação retornavam aos braços de forma inesperada. Eu não podia ficar nem por segundos sem me movimentar. É absolutamente espantoso ter tido a chance de beber várias vezes a água do mar e, em nenhuma delas, ela ter ido aos pulmões. Em todas as vezes em que fui surpreendido, eu não estava inspirando o ar; e, mesmo engolindo a água, o corpo anulou a reação de vômito, o que seria uma operação extremamente complicada naquele contexto. Ainda assim, consegui respirar e manter a cabeça fora d’água, vencendo as ondas. Deus ali.
Estranhas reações do corpo e da mente ao longo desse caos
Bebi
Engoli muita água do mar, mas meu corpo não teve o reflexo de vômito, não sei se por causa da posição, no mar, inclusive eu parecia nem sentir ela tão salgada, mas quando cheguei na praia a vontade que não apareceu no mar sentir em terra, firme, mas apesar disso não consegui colocar o que estava no estomago para fora
Momentos de aceitação
Quando não ouvi mais os gritos, pensei que todas tivessem morrido e achei que eu apenas tinha alguns minutos a mais para viver. Não foi pânico, mas uma aflição extrema e a decisão de nadar ao limite, buscando apagar por exaustão
Câimbras
Não tive câimbras ou qualquer dor que me impedisse de nadar (tentar), tive a "sorte" de engolir, mas não me engasgar
Gerenciamento de energia
A absurda sensação que minha energia geral teve um novo balanceamento, dando privilégio aos braços, reduzindo a energia das pernas e até mesmo reduzindo a energia para pensar coisas mais complexas, tanto que várias coisa do momento só agora tenho clareza, até coloco um pouco na conta o fato de ter demorado me obrigar a nada lateralmente
Pânico x aflição
Acredito que permaneci muito mais no terreno da aflição, como se não tivesse energia para acionar o modo pânico, o que acabou sendo uma bênção. Claro que ele estava lá, mas ficou encoberto pela aflição
Na areia
Quando consegui respirar um pouco melhor e me recuperar na areia, comecei a falar sem freio, como uma metralhadora, mas de forma compreensível, talvez um desabafo modo turbo
Dor de cabeça zero nada de dormir na primeira noite
Uma dor de cabeça típica de congestionamento de pensamentos no primeiro dia, com direito a muitas cenas do episódio, acompanhando a noite, a madrugada e o amanhecer sem dormir
Várias vezes uma bateria fantasma saía do 0 aos 5%
Diria que, pelo menos umas cinco vezes, tive a sensação de quase zerar a bateria e, do nada, ela voltar aos 5% para aquele esforço necessário e urgente. Era um apagamento iminente que se adiava, adiava e adiava
Homenagem à Lara Rebeca, vítima de afogamento em 03/01/2026
“Doce criança, lutamos muito e por muito tempo pela vida. Além do extremo esforço para ficar acima das ondas, qualquer distração era a certeza de engolir água. Você agora é um anjo em plena paz. Eu e suas amiguinhas sabemos o quanto você merece a felicidade eterna.”
Aqui, meus respeitos e minha dor pela pequenina que não sobreviveu.












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