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Onda de vendas de FMs em 2025 expõe a urgência da digitalização do rádio no Brasil

A expressiva movimentação de compra e venda de emissoras FM observada ao longo de 2025 não pode ser interpretada apenas como um fenômeno conjuntural de mercado. Trata-se, sobretudo, de um sinal estrutural de esgotamento do modelo analógico tradicional e de uma antecipação, ainda que defensiva, a um inevitável processo de transformação tecnológica do rádio brasileiro.


Em muitos casos, as negociações não refletem otimismo ou expansão, mas reposicionamento estratégico. Grupos econômicos mais capitalizados absorvem ativos fragilizados, enquanto operadores menores optam por sair do mercado diante da dificuldade crescente de sustentar operações baseadas exclusivamente no FM analógico. O valor da outorga, isoladamente, já não garante competitividade nem previsibilidade de receita.


O FM como ativo em transição, não como porto seguro

Durante décadas, a frequência FM foi sinônimo de estabilidade: audiência massiva, baixo custo de recepção para o ouvinte e uma cadeia comercial bem compreendida. Esse cenário mudou. O público fragmentou-se, a publicidade migrou para ambientes digitais mensuráveis e o consumo de áudio passou a ser multiplataforma. O FM, por si só, deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser apenas mais um canal de distribuição.

A intensificação das vendas em 2025 indica que muitos empresários já internalizaram essa mudança. Comprar uma FM hoje não é adquirir um negócio maduro e previsível, mas um ativo em transição, que exige investimentos adicionais em tecnologia, distribuição digital e novos formatos de conteúdo para continuar relevante.


Digitalização como resposta estrutural, não como acessório

Nesse contexto, a digitalização do rádio deixa de ser um debate teórico ou regulatório distante e passa a ser uma necessidade operacional. Sistemas digitais permitem ganhos claros em eficiência espectral, qualidade de áudio, robustez de sinal, transmissão de dados associados e, sobretudo, integração real com o ecossistema digital onde o público já está.

A movimentação do mercado em 2025 sugere que muitos investidores estão se posicionando para essa virada: consolidam FMs hoje para transformá-las amanhã em plataformas híbridas ou plenamente digitais, capazes de competir não apenas com outras rádios, mas com serviços globais de áudio sob demanda.


Quem vende, quem compra e por quê

Há um padrão recorrente nas transações recentes. De um lado, operadores locais, dependentes de publicidade tradicional e com baixa capacidade de investimento, optam pela venda antes que o ativo perca ainda mais valor relativo. Do outro, grupos que enxergam escala, tecnologia e dados como fatores centrais apostam na consolidação, preparando o terreno para um rádio redesenhado.

Esse movimento é típico de setores às vésperas de uma inflexão tecnológica: os ativos mudam de mãos antes que o novo modelo se imponha de forma definitiva. A história das telecomunicações, da televisão e da mídia impressa oferece paralelos claros.


O recado de 2025 para o rádio brasileiro

A intensa circulação de outorgas FM em 2025 é, portanto, menos um sinal de vitalidade e mais um alerta. O mercado está se reorganizando porque percebe que o modelo atual não se sustenta no médio prazo sem uma transição tecnológica clara. A digitalização do rádio no Brasil não é apenas desejável; tornou-se urgente.

Ignorar esse movimento significa repetir erros já cometidos por outros meios, que reagiram tarde demais às mudanças de consumo. Ler corretamente os sinais de 2025 pode permitir que o rádio faça algo raro no setor de mídia: antecipar o futuro em vez de apenas reagir a ele.


Algumas cenas do filme em 2025

Se alguém parasse para observar o rádio brasileiro em 2025 com um mínimo de atenção, perceberia que algo mudou no tom da conversa. Não foi um ano de anúncios triunfalistas, nem de grandes slogans sobre “o futuro do rádio”. Foi mais silencioso. Mais pragmático. E, justamente por isso, mais revelador.

Em São Paulo, o maior laboratório de mídia do país, os fatos se atropelaram. Encerramentos definitivos no AM, estreias no FM estendido, marcas históricas trocando de faixa, de nome e até de identidade. Sete emissoras em Ondas Médias desligaram seus transmissores na Grande São Paulo. Algumas fecharam um ciclo de décadas sem alarde, quase como quem aceita que insistir já não faz sentido. Outras simplesmente mudaram de endereço no dial e seguiram em frente, agora em FM, tentando reaprender a falar com o público.

A entrada da Rádio Record no FM estendido, a estreia da Canção Nova em 85,9 MHz, a ativação da Estilo FM em 79,1 MHz, a migração da Da Cidade em Guarulhos… tudo isso, visto em conjunto, parece menos uma festa de inauguração e mais uma reorganização de móveis numa casa antiga. Nada foi demolido de vez, mas ficou claro que o espaço precisava ser reconfigurado.

E enquanto São Paulo se mexia, o Nordeste também dava sinais claros de que o movimento não era local, nem pontual.

Em Natal, 2025 foi um ano particularmente simbólico. A venda da 104 FM, uma frequência relevante no dial da capital potiguar, não aconteceu por acaso nem isoladamente. Veio acompanhada da venda da CBN Natal e de uma sequência de negociações no interior do Rio Grande do Norte, envolvendo emissoras que, durante anos, foram negócios familiares, regionais, estáveis dentro de suas limitações.

Quando várias rádios mudam de dono ao mesmo tempo, raramente é só uma questão de preço. É leitura de cenário. Quem vende, em geral, percebe que o modelo está ficando pesado demais para carregar sozinho. Quem compra, normalmente, não está comprando apenas o presente, mas tentando montar alguma lógica para o que vem depois.

E aí surge a pergunta que atravessa todo esse processo: por que tanta movimentação agora?

Porque o FM, que durante décadas foi sinônimo de segurança, virou um ativo de transição. Ele continua relevante, continua potente, continua com penetração popular, mas já não se sustenta como solução única. O rádio virou multiplataforma sem pedir licença. O ouvinte migrou para o streaming, para o celular, para o carro conectado. A publicidade seguiu o mesmo caminho. E o FM ficou ali, firme, mas pressionado por todos os lados.

Em São Paulo, isso ficou explícito nos reposicionamentos. A Transamérica mudando de perfil, a chegada da futura Forbes Radio, a reorganização de grades, o fim de arrendamentos religiosos em algumas frequências. Tudo indica uma busca quase angustiada por novos sentidos editoriais e novos modelos de receita.

No Rio Grande do Norte, a leitura é ainda mais crua. Muitas das rádios vendidas no interior não estavam quebradas, mas estavam no limite do crescimento possível dentro do modelo analógico tradicional. Pouca margem para investir, dificuldade crescente para competir com plataformas digitais e uma percepção clara de que, sem escala ou tecnologia, o jogo ficaria cada vez mais duro.

E é nesse ponto que a digitalização deixa de ser discurso acadêmico ou promessa distante.

Quando se observa esse conjunto de movimentos, desligamentos no AM, migração para o FM estendido, compras e vendas de FMs, consolidação de grupos e saída de operadores menores, o que aparece não é entusiasmo, mas urgência. Urgência por eficiência, por integração com dados, por qualidade técnica, por novos formatos de entrega de conteúdo.

O FM estendido, aliás, é quase um símbolo dessa fase intermediária. Ele resolve parte do problema, mas não todos. Em 2026, muitas dessas emissoras ainda enfrentarão limitações claras: receptores incompatíveis, dificuldade de mensuração de audiência, resistência do mercado anunciante e a necessidade constante de justificar sua relevância comercial. Não é uma solução final. É uma ponte.

Talvez a maior lição de 2025 seja essa: o rádio brasileiro não está morrendo, mas também não está confortável. Ele está se mexendo porque percebeu que ficar parado custa mais caro do que mudar.

As vendas da 104 FM, da CBN Natal e de tantas rádios no interior potiguar, somadas aos grandes movimentos paulistas, não são exceções regionais. São capítulos diferentes da mesma história. Uma história em que o FM, sozinho, já não basta, e em que a digitalização deixou de ser escolha para se tornar condição de sobrevivência.

O rádio, finalmente, começou a conversar seriamente consigo mesmo. E quem não estiver ouvindo essa conversa em 2026 corre o risco de ficar falando sozinho.

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