É melhor ter 20 rádios monotemáticas diferentes do que 20 rádios “ecléticas” iguais
- Ricardo Gurgel

- 13 de fev.
- 3 min de leitura
Bem, o que quero dizer é que não acharia nada mal ter a FM 87,9 focada no nicho A, por exemplo, tocando apenas pagode; a 88,1 apenas MPB; a 88,3 somente rock clássico; a 88,5 exclusivamente forró. Imagine chegar até a 107,9 e ela ser uma rádio dedicada apenas a ítalo dance. Ou seja, eu estaria a um clique de viver 20 experiências diferentes, bastando acompanhar o meu humor.
Não tenho a menor necessidade de ser fiel a qualquer emissora. Posso acordar e, das 7h às 9h, ouvir classic rock; das 9h às 11h, ouvir lentas internacionais; das 11h às 13h, apenas notícias; das 13h às 15h, ouvir o hit parade; das 15h às 18h, ouvir rock nacional dos anos 80. Tudo isso só seria possível porque o dial teria cerca de 20 emissoras focadas na excelência de programar músicas para o seu nicho: rádios especialistas.
Assim, posso simplesmente seguir a minha vontade e saber exatamente qual rádio vai me atender naquele momento. Não faz sentido eu me irritar com a Antena 1 porque ela não toca música nacional. Qual seria o sentido de reclamar da Antena 1, se o papel dela é justamente esse? Para ouvir MPB, basta eu sintonizar na NovaBrasil. Pronto: encontrei outra FM nichada, focada, que entrega exatamente o que meu humor pede naquele instante.
Sem a menor necessidade de achar que estou “preso” à Antena 1, nem de querer irritar seus ouvintes tentando fazê-la mudar de propósito. E veja só: duas horas depois posso sair da NovaBrasil e ir para outra FM ouvir apenas músicas bregas. Perfeito.
Um dial eclético é muito mais eficiente do que ter todas as FMs do dial ecléticas e imprevisíveis.
Agora imagine a situação oposta: eu sintonizo a 87,9 FM e ela toca aleatoriamente forró, pagode, pop, lentas internacionais. Mudo para a 90,5 FM e ela toca forró, pagode, pop, lentas internacionais. Vou para a 104,3 FM e ela também está tocando forró, pagode, pop, lentas internacionais. Resultado: temos um dial irritante e repetitivo.
Eu amo emissoras nichadas, previsíveis aos meus ouvidos. Assim, basta seguir minhas vontades e sintonizar exatamente aquela que me atende.

Apontamento mais direto:
1) “rádio como prateleira”
Cada frequência é um “produto” claramente definido.
O ouvinte não precisa “testar” a emissora.
Ele sabe previamente o que encontrará.
Isso reduz frustração e aumenta tempo de permanência.
Previsibilidade + curadoria.
2) Mais eficiente economicamente do que parece
Emissoras nichadas:
Têm branding mais claro
Facilitam venda de publicidade segmentada
Custam menos para se posicionar (menos disputa por “todo mundo”)
Já rádios generalistas:
Tentam agradar a todos
Frequentemente não fidelizam ninguém
Acabam virando commodities no dial
3) Comportamento de consumo moderno
O ouvinte atual:
Não é fiel a marcas
É fiel a momentos
Alterna estilos ao longo do dia
Mudar de estação conforme o humor. Isso é exatamente o mesmo padrão observado em Spotify, YouTube Music e playlists sob demanda.
4) Um vício histórico do rádio brasileiro
No Brasil, criou-se uma cultura de:
“Rádio boa é a que toca de tudo um pouco” (MITO!, puro MITO)
Esse modelo nasceu quando:
Existiam poucas emissoras
Poucas opções de mídia
Baixa concorrência
Hoje isso virou anacronismo.
5) Saudável para o dial
Menos rádios brigando pelo mesmo ouvinte
Menos guerra de playlist
Mais identidade
Mais diversidade real
Paradoxalmente, menos “rádios ecléticas” gerariam um dial muito mais diverso.
!Ponto de atenção!
Em mercados muito pequenos, não há público suficiente para sustentar nichos, é um modelo metropolitano















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