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Strategy Engineering

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Com a faixa AM desocupada, rádios da Argentina passam a ser ouvidas no Nordeste brasileiro

Isso pode ser considerado um fato paradoxal. Como uma faixa com essa capacidade de alcance pode ser abandonada por um país? Veja o que temos agora: rádios da Argentina sendo captadas a milhares e milhares de quilômetros de Buenos Aires, praticamente perto de Natal, no Rio Grande do Norte. Eu mesmo já captei a Mitre 790 AM, entre outras.

De que adianta ser captada tão distante se, na própria cidade da emissora, o sinal desaparece quando se entra em estacionamentos de shoppings, prédios e supermercados? De que adianta se, dentro de casa, lâmpadas LED e fluorescentes, quando ligadas, criam um zumbido na transmissão do futebol? Até mesmo ouvir AM dentro do carro pode ser uma experiência de flutuação contínua, com zumbidos, ruídos e outras interferências. De que adianta alcançar milhares de quilômetros em um mercado que não consome aquela rádio, enquanto o áudio da transmissão parece sair de uma antena enterrada a um metro no solo?

A captação que tive das rádios argentinas ocorreu na BR 101, distante dos postes da estrada, longe de casas, indústrias e comércios, em uma rara combinação de isolamento elétrico e, especificamente, durante a noite. Ou seja, um horário restrito para esse super alcance e um ambiente muito particular para que isso fosse possível. Parei em um posto de gasolina e o áudio virou um ruído intenso. Como tinha curiosidade de continuar ouvindo, abri o aplicativo RadiosNet, busquei a Mitre 790 de Buenos Aires, emparelhei o celular ao carro via bluetooth e segui ouvindo por mais quinze minutos, com um som infinitamente mais limpo.

A distância deixou de ser um diferencial para as AMs. A internet apropriou se dessa vantagem. O Brasil não errou ao permitir que suas emissoras AM migrassem para o FM. O som é muito melhor, as rádios podem ser captadas dentro de estacionamentos e dentro de casa, por mais eletrificadas que sejam, com menos interferência e menos ruídos, justamente nos mercados que são foco dessas emissoras. Além disso, operam com maior eficiência energética com transmissores FM, e não mais com transmissores AM. A manutenção também é mais simples nas estações FM.

Não há motivos para se apegar ao momento do rádio AM. É como uma camisa de futebol honrada, que ficará emoldurada com o número aposentado, um objeto de admiração e respeito que teve sua época. Não adianta insistir para que radiodifusores quebrem financeiramente ao permanecerem no AM e abrirem mão da migração para o FM, sobretudo se ninguém estiver disposto a contribuir para que consigam pagar as contas de manter uma estação de rádio AM.


Aos apaixonados a dor das descobertas que :

1) O “super alcance” virou um atributo sem valor econômico

Historicamente, o grande trunfo do AM era cobrir longas distâncias. Hoje, isso não se traduz em audiência, nem em receita. Captar uma emissora a milhares de quilômetros não significa consumi la, muito menos gerar mercado publicitário. O principal diferencial histórico do AM tornou se irrelevante justamente na era da conectividade global.


2) A migração AM FM é menos “abandono” e mais “racionalização técnica”

Costuma se tratar a migração como uma perda cultural, na prática, uma correção de rota tecnológica, baseada em eficiência energética, robustez de recepção e viabilidade operacional. O Brasil não matou o AM; apenas reconheceu que sua função original foi substituída por meios mais eficientes.


3) O AM moderno sofre mais dentro da própria cidade do que fora dela

É paradoxal, mas :

  • Em ambiente urbano denso, o AM sofre brutalmente.

  • Em áreas isoladas, ele “brilha”.

O AM virou um sistema excelente para lugares onde quase ninguém vive e péssimo para onde a audiência realmente está.


4) A internet não é concorrente do rádio AM: é substituta direta da sua proposta histórica

O AM nasceu como meio de longo alcance. Hoje, quem entrega alcance ilimitado, estabilidade e qualidade é a internet.


5) Nostalgia não paga conta de energia

Defender a permanência no AM, sem oferecer solução financeira, é romantização estéril. O discurso de preservação cultural frequentemente ignora a sustentabilidade econômica das emissoras.


6) O “abandono” da faixa AM cria um laboratório natural de propagação

Com menos emissoras ocupando a faixa, surgem condições ideais para DX, escutas experimentais e observações técnicas, algo sensacional para pouquíssimos apaixonados


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