Prevejo a rádio TMC com audiência muito baixa
- Ricardo Gurgel

- 1 de jan.
- 4 min de leitura
Como se posiciona a TMC
Assim como ocorre com a média do jornalismo, trata se de um perfil notoriamente de esquerda, ainda que nem sempre declarado de forma explícita
Como é o público que realmente tem "saco" para ouvir uma rádio "jornal/esporte"
Dimensão | Características predominantes |
Gênero | Majoritariamente masculino |
Faixa etária | Adultos e meia idade (aprox. 30 a 65 anos) |
Perfil econômico | Economicamente ativo, trabalhadores formais, empresários, profissionais liberais, gestores, autônomos |
Renda | Média, média alta e alta |
Escolaridade | Média completa a superior, com forte presença de ensino superior |
Interesses centrais | Economia, política institucional, mercado financeiro, impostos, negócios, geopolítica, poder |
Motivação para consumir jornalismo | Compreender riscos, antecipar cenários, tomar decisões econômicas e profissionais |
Forma de consumo | Hábito diário, recorrente, muitas vezes várias horas por dia |
Relação com dados | Forte valorização de números, indicadores, estatísticas, correlações e causalidade |
Tolerância à superficialidade | Baixa; rejeita slogans, clichês e análises rasas |
Expectativa editorial | Análise objetiva, pragmática, com leitura de incentivos e consequências |
Posicionamento ideológico predominante | Pró mercado, liberal, conservador ou direita institucional |
Visão sobre empreendedorismo | Positiva; vê o empreendedor como gerador de riqueza e emprego |
Visão sobre Estado | Cética quanto à eficiência estatal; crítica a excessos regulatórios e carga tributária |
Reação a jornalismo militante | Alta rejeição; percebe rapidamente viés ideológico |
Fidelidade à marca | Alta quando há coerência editorial; muito baixa quando há ambiguidade |
Sensibilidade à incoerência | Muito elevada; inconsistências geram abandono imediato |
Critério de confiança | Previsibilidade ideológica implícita, coerência ao longo do tempo |
Comportamento diante de mudança editorial | Abandona rapidamente se perceber ruptura ou desalinhamento |
Valor comercial para anunciantes | Alto; público decisor, formador de opinião e com poder de consumo |
A previsão de um desempenho fraco possivelmente ainda pior do que o da fase final da Transamérica não nasce de antipatia pela marca nem de torcida ideológica. Ela nasce da observação fria de como a audiência de rádio se forma se mantém e se perde especialmente quando o produto em questão tenta disputar o território da informação.
A mudança de identidade para TMC não corrigiu o problema central: a emissora não sabe exatamente para quem fala. E no rádio falar para todo mundo equivale a não falar para ninguém.
O primeiro erro foi a destruição de equity sem contrapartida clara. A Transamérica embora desgastada ainda carregava memória afetiva associação esportiva e reconhecimento espontâneo. A TMC surge como uma marca nova sem lastro emocional e sem uma promessa simples de ser compreendida em poucos segundos. Em um dial congestionado como o de São Paulo isso é fatal. O ouvinte não faz esforço cognitivo para entender uma emissora ele simplesmente gira o botão.
O segundo problema é o posicionamento difuso. A TMC não é uma rádio musical clara não é uma rádio jovem não é uma adulta contemporânea clássica e tampouco assume com coragem o território do jornalismo duro. Ela oscila entre formatos tons e intenções. O resultado é previsível: não cria hábito. E sem hábito rádio não sobrevive.
Mas o ponto mais grave e aqui entra o argumento central é o desalinhamento ideológico e cultural com o público que consome informação de forma intensiva.
O público fanático por informação sobretudo economia e política não é um público genérico. Trata se majoritariamente de um público masculino adulto economicamente ativo interessado em números incentivos mercado poder impostos negócios e geopolítica. É um público pragmático que pensa em termos de custo risco retorno e consequência. E por definição é um público majoritariamente pró mercado liberal ou de direita.
Esse público não tolera jornalismo que demoniza lucro que trata o empreendedor como vilão moral que relativiza eficiência econômica ou que substitui análise por militância. Ele rejeita narrativas abstratas que ignoram incentivos reais e desprezam o funcionamento concreto da economia. E sobretudo ele percebe rapidamente quando uma emissora fala de economia sem gostar de quem produz riqueza.
A TMC tenta disputar esse ouvinte oferecendo um cardápio editorial muito semelhante ao jornalismo majoritariamente de esquerda que domina boa parte da mídia brasileira: crítico ao mercado desconfiado do empreendedorismo moralista na forma e raso na análise econômica. O resultado é um paradoxo clássico: fala para um público que não a procura e afasta o único público que poderia ser fiel.
O ouvinte pró mercado não cria vínculo. O ouvinte de esquerda já possui veículos com os quais se identifica historicamente. A TMC fica no meio do caminho sem base leal sem identidade clara e sem comunidade de ouvintes. Em rádio informativo isso é sentença de irrelevância.
Some se a isso o fato de que jornalismo exige confiança e previsibilidade ideológica implícita. O ouvinte precisa saber o que esperar. Não no sentido de concordar com tudo mas de reconhecer coerência. Quando a emissora tenta agradar a todos o efeito prático é desagradar a quem realmente sustenta audiência consistente.
Por fim há o erro clássico de confundir discurso bonito com produto competitivo. Rebrandings costumam impressionar executivos e consultores mas audiência não se conquista em apresentação institucional. Conquista se com foco brutal clareza de público e coragem de assumir um lado não partidário mas cultural e econômico.
Se a previsão de baixa audiência da TMC se confirmar ela não será fruto do acaso. Será consequência direta de erros de targeting de posicionamento editorial e de incompreensão profunda sobre quem consome informação no rádio e por quê. O rádio informativo não perdoa ambiguidade não tolera incoerência e não recompensa quem despreza o perfil real do seu público.
Nesse sentido a queda não será surpresa. Será apenas a confirmação de uma lógica que o mercado insiste em ignorar e que a audiência insiste em respeitar.










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