Prevejo a rádio TMC com audiência muito baixa
- Ricardo Gurgel

- 1 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 4 de fev.
São peladeiros e empreendedores, reflexo absoluto daqueles que se revoltaram nos burgos contra a servidão ao Estado. Esse é o público que adoraria uma rádio que falasse de economia e que não passasse o dia defendendo mais impostos em nome de um produto ilusório do welfare state.
Não vai ser uma rádio com receitinhas e recomendação de vinhos que terá audiência
Não será uma rádio que, implicitamente, quase chama, mordendo os lábios, os pequenos empreendedores do Brasil de pobres de direita que terá audiência.
O pessoal que buscou cursos que de forma alguma tinham matemática na grade certamente não entende e nem gosta de ouvir sobre economia. E é esse o público que a TCM quer atrair?
Como se posiciona a TMC
Assim como ocorre com boa parte do jornalismo, existe uma dificuldade brutal em focar no público quando se utiliza uma programação que parece querer “marginalizar” o próprio público.
A rede TCM segue esse padrão, com uma redação jornalística do jeito que é ensinada nas universidades, e vocês sabem o quanto esse perfil de jornalista formado nelas “gosta do capitalismo e dos empreendedores”.
Mas quem gosta de rádios blá, blá, blá (no melhor dos sentidos), quem gosta de rádios de converseiros, são peladeiros fanáticos por futebol, que gostam de um barzinho no sábado à noite e de uma praia no domingo de manhã, e muitos passam a semana em suas empresas se irritando com a burocracia brasileira, descobrindo que o Congresso acabou de aprovar mais um projeto do governo federal com mais impostos, que conseguem entender minuciosamente que aquele outro projeto que parece beneficiar certo público é populista, insustentável e vai comprometer a economia. Sinto dizer, mas não é o ator de teatro que, em média, é fã de assuntos econômicos. Em geral, até existem haters matemáticos em várias camadas da nossa sociedade que querem nos ensinar economia. Nossa, o quanto isso me lembra do desatre peronista feito na economia argentina, tudo ali seguindo a cartilha do inimigo do mínimo pensamento matemático.
São peladeiros e empreendedores, reflexo absoluto daquele que se revoltaram nos burgos contra a servidão ao estado, esses são o público que adoraria uma rádio que falasse de economia que não passasse o dia defendendo mais impostos em nome de um produto ilusório do WELL FARE STATE
Como é o público que realmente tem "saco" para ouvir uma rádio "jornal/esporte"
Dimensão | Características predominantes |
Gênero | Majoritariamente masculino |
Faixa etária | Adultos e meia idade (aprox. 30 a 65 anos) |
Perfil econômico | Economicamente ativo, trabalhadores formais, empresários, profissionais liberais, gestores, autônomos |
Renda | Média, média alta e alta |
Escolaridade | Média completa a superior, com forte presença de ensino superior |
Interesses centrais | Economia, política institucional, mercado financeiro, impostos, negócios, geopolítica, poder |
Motivação para consumir jornalismo | Compreender riscos, antecipar cenários, tomar decisões econômicas e profissionais |
Forma de consumo | Hábito diário, recorrente, muitas vezes várias horas por dia |
Relação com dados | Forte valorização de números, indicadores, estatísticas, correlações e causalidade |
Tolerância à superficialidade | Baixa; rejeita slogans, clichês e análises rasas |
Expectativa editorial | Análise objetiva, pragmática, com leitura de incentivos e consequências |
Posicionamento ideológico predominante | Pró mercado, liberal, conservador ou direita institucional |
Visão sobre empreendedorismo | Positiva; vê o empreendedor como gerador de riqueza e emprego |
Visão sobre Estado | Cética quanto à eficiência estatal; crítica a excessos regulatórios e carga tributária |
Reação a jornalismo militante | Alta rejeição; percebe rapidamente viés ideológico |
Fidelidade à marca | Alta quando há coerência editorial; muito baixa quando há ambiguidade |
Sensibilidade à incoerência | Muito elevada; inconsistências geram abandono imediato |
Critério de confiança | Previsibilidade ideológica implícita, coerência ao longo do tempo |
Comportamento diante de mudança editorial | Abandona rapidamente se perceber ruptura ou desalinhamento |
Valor comercial para anunciantes | Alto; público decisor, formador de opinião e com poder de consumo |
A previsão de um desempenho fraco possivelmente ainda pior do que o da fase final da Transamérica não nasce de antipatia pela marca nem de torcida ideológica. Ela nasce da observação fria de como a audiência de rádio se forma se mantém e se perde especialmente quando o produto em questão tenta disputar o território da informação.
A mudança de identidade para TMC não corrigiu o problema central: a emissora não sabe exatamente para quem fala. E no rádio falar para todo mundo equivale a não falar para ninguém.
O primeiro erro foi a destruição de equity sem contrapartida clara. A Transamérica embora desgastada ainda carregava memória afetiva associação esportiva e reconhecimento espontâneo. A TMC surge como uma marca nova sem lastro emocional e sem uma promessa simples de ser compreendida em poucos segundos. Em um dial congestionado como o de São Paulo isso é fatal. O ouvinte não faz esforço cognitivo para entender uma emissora ele simplesmente gira o botão.
O segundo problema é o posicionamento difuso. A TMC não é uma rádio musical clara não é uma rádio jovem não é uma adulta contemporânea clássica e tampouco assume com coragem o território do jornalismo duro. Ela oscila entre formatos tons e intenções. O resultado é previsível: não cria hábito. E sem hábito rádio não sobrevive.
Mas o ponto mais grave e aqui entra o argumento central é o desalinhamento ideológico e cultural com o público que consome informação de forma intensiva.
O público fanático por informação sobretudo economia e política não é um público genérico. Trata se majoritariamente de um público masculino adulto economicamente ativo interessado em números incentivos mercado poder impostos negócios e geopolítica. É um público pragmático que pensa em termos de custo risco retorno e consequência. E por definição é um público majoritariamente pró mercado liberal ou de direita.
Esse público não tolera jornalismo que demoniza lucro que trata o empreendedor como vilão moral que relativiza eficiência econômica ou que substitui análise por militância. Ele rejeita narrativas abstratas que ignoram incentivos reais e desprezam o funcionamento concreto da economia. E sobretudo ele percebe rapidamente quando uma emissora fala de economia sem gostar de quem produz riqueza.
A TMC tenta disputar esse ouvinte oferecendo um cardápio editorial muito semelhante ao jornalismo majoritariamente de esquerda que domina boa parte da mídia brasileira: crítico ao mercado desconfiado do empreendedorismo moralista na forma e raso na análise econômica. O resultado é um paradoxo clássico: fala para um público que não a procura e afasta o único público que poderia ser fiel.
O ouvinte pró mercado não cria vínculo. O ouvinte de esquerda já possui veículos com os quais se identifica historicamente. A TMC fica no meio do caminho sem base leal sem identidade clara e sem comunidade de ouvintes. Em rádio informativo isso é sentença de irrelevância.
Some se a isso o fato de que jornalismo exige confiança e previsibilidade ideológica implícita. O ouvinte precisa saber o que esperar. Não no sentido de concordar com tudo mas de reconhecer coerência. Quando a emissora tenta agradar a todos o efeito prático é desagradar a quem realmente sustenta audiência consistente.
Por fim há o erro clássico de confundir discurso bonito com produto competitivo. Rebrandings costumam impressionar executivos e consultores mas audiência não se conquista em apresentação institucional. Conquista se com foco brutal clareza de público e coragem de assumir um lado não partidário mas cultural e econômico.
Se a previsão de baixa audiência da TMC se confirmar ela não será fruto do acaso. Será consequência direta de erros de targeting de posicionamento editorial e de incompreensão profunda sobre quem consome informação no rádio e por quê. O rádio informativo não perdoa ambiguidade não tolera incoerência e não recompensa quem despreza o perfil real do seu público.
Nesse sentido a queda não será surpresa. Será apenas a confirmação de uma lógica que o mercado insiste em ignorar e que a audiência insiste em respeitar.




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